Azambuja e suas origens: O Mapa Histórico que revela a distribuição dos primeiros imigrantes italianos no Sul de Santa Catarina

Pedras Grandes

(Júlio Cesar Cancellier de Olivo, Jornalista, Mestre em Cinema Digital e Produção Televisiva pela Università Cattolica del Sacro Cuore, pesquisador e criador de conteúdos multiplataforma sobre a História da Imigração Italiana no Sul de Santa Catarina)

A Planta Geral da Colônia Azambuja, um documento histórico de 137 anos, revela a origem do desenvolvimento do Sul catarinense. O mapa detalha o assentamento inicial, com 1066 lotes distribuídos em 41 linhas, marcando o ponto de partida da imigração italiana no final do Século XIX nos atuais municípios de Pedras Grandes, Urussanga, Criciúma, Cocal do Sul, Treze de Maio, Tubarão, Morro da Fumaça, Siderópolis e Orleans.

Naquele tempo, todo este território fazia parte do município de Tubarão, emancipado de Laguna em 1870. Atraídos pela promessa de uma nova vida nas colônias de Azambuja (1877), Grão-Pará (1882) e Nova Veneza (1891), o fluxo imigratório para o sul do estado pode ter alcançado 6.664 italianos, de 1458 sobrenomes diferentes, entre os anos 1877 e 1897, segundo levantamento do autor com base em inúmeras fontes de pesquisa.

Neste contexto, surge o documento cartográfico intitulado “Planta Geral da Colônia Azambuja, na Província de Santa Catarina”, obra que foi coordenada e desenhada em 1888 por Antonio Lopes de Mesquita e oferecida pelo autor ao Coronel Francisco de Barros Accioli de Vasconcellos, na capital Desterro, em dezembro daquele ano. Na parte inferior da imagem consta a informação agregada mais recentemente quando foi digitalizada: “Gentileza de Walmir Fernandes (Lauro Muller-SC), Pesquisa de Roque Salvan”.

O desenho em escala 1:100.000 metros, 130×80 cm, identifica áreas com a seguinte convenção: Patrimônio da S.S A.A I.I, Núcleo Urussanga, Núcleo Accioli Vasconcellos, Núcleo Azambuja, Núcleo 13 de Maio (Presidente Rocha) e Núcleo Cresciuma. O trabalho também mostra quadros de Terras Particulares, Terras Devolutas, Sesmarias, Terras de Visconde de Barbacena e Serra Geral. Diversos rios são mapeados como o Tubarão, Carvão, Bonito, Mãe Luzia, Forquilhinha, Sangão, Manoel Alves, entre outros. Algumas vilas são identificadas como Campinas, Rio Vargedo, Azambuja, Cresciuma, Cocal, Urussanga, Pedras Grandes, Orleans e Treze de Maio, e os municípios de Tubarão e Laguna. Outros pontos de destaque: lagoas, morros, barras, o Cabo de Santa Marta, o Oceano Atlântico, linha telegráfica e a linha da Estrada de Ferro Dona Thereza Cristina.

Ao sobrepor o mapa antigo como uma camada de georreferenciamento no Google Earth, é possível localizar aproximadamente a disposição atual dos antigos povoados e lotes: 4ª Linha Linha Rio Sangão, 43 lotes (Criciúma); 3ª Linha Cocal, 12 lotes (Criciúma); Linha Patrimonio SS Alteza, 20 lotes (Cocal do Sul, Siderópolis); 2ª Linha Cocal, 25 lotes (Cocal do Sul); Linha Cocal, 31 lotes (Cocal do Sul); Linha Ferreira Pontes, 45 lotes (Cocal do Sul); Linha Braço do Cocal, 32 lotes (Cocal do Sul); Linha Estrada A. Vasconcelos, 34 lotes (Cocal do Sul, Urussanga); Linha Rio Comprudencio, 16 lotes (Urussanga); Linha Cocal Baixo, 4 lotes (Cocal do Sul); Linha Estrada de Cresciuma, 32 lotes (Cocal do Sul); Linha Braço do Cocal 2, 11 lotes (Cocal do Sul); Linha 2º Braço do Cocal, 11 lotes (Morro da Fumaça); Linha Rio Caethé, 62 lotes (Urussanga); Linha Rio Deserto, 13 lotes (Urussanga); Linha Rio Americano, 36 lotes (Urussanga); Linha Rio Carvão, 40 lotes (Urussanga); Rio Urussanga, 24 lotes (Linha Rio Maior); Rio Urussanga, 31 lotes (Rio Maior); Linha Rio Molha, 14 lotes (Urussanga); Linha Rio Palmeira, 18 lotes (Urussanga, Orleans); Linha Rio do Armazem, 45 lotes (Urussanga); Rancho dos Bugres, 24 lotes (Urussanga, Pedras Grandes); Linha Rio Barro Vermelho, 27 lotes (Urussanga); Rio Carvalho, 10 lotes (Urussanga); Linha Urussanga, 36 lotes (Urussanga); Linha Urussanga Baixa, 23 lotes (Pedras Grandes, Treze de Maio); Linha Ribeirão da Areia, 14 lotes (Pedras Grandes); 2ª Linha Urussanga Baixa, 16 lotes (Treze de Maio); Linha Rio Caipora, 44 lotes (Treze de Maio); Linha Paiva, 22 lotes (Treze de Maio); Linha Coruja, 33 lotes (Treze de Maio); Linha Extrema Corrêa, 14 lotes (Treze de Maio); Linha Mesquita, 34 lotes (Treze de Maio, Tubarão); Linha Fausto Junior, 38 lotes (Treze de Maio); Rio Cintra, 12 lotes (Pedras Grandes); Linha Rio Confluente, 25 lotes (Pedras Grandes); Linha Rio Santo Antônio ou Cabeiras do Rio Pedras Grandes, 31 lotes (Pedras Grandes); Linha Rio Pedras Grandes, 22 lotes (Pedras Grandes); Linha Rio Canela Grande, 22 lotes (Pedras Grandes) e Linha Extrema Pacheco, 20 lotes (Pedras Grandes).

A Planta Geral da Colônia Azambuja, datada de 1888, transcende sua função cartográfica para se consolidar como um dos documentos mais antigos e fundamentais para a compreensão da história da imigração italiana no Sul de Santa Catarina. Este detalhado mapa, coordenado por Antonio Lopes de Mesquita e resgatado por Walmir Fernandes e Roque Salvan, não apenas registra a distribuição original de 1066 lotes em 41 linhas, mas também é um testemunho visual da gênese territorial que deu origem a múltiplos municípios atuais.

O estudo deste documento ressalta a complexidade e a ambição do projeto de colonização no final do Século XIX. Ao identificar os núcleos de povoamento (Azambuja, Urussanga, Cresciuma, Acioli de Vasconcellos e Presidente Rocha) e mapear rios vitais e a infraestrutura da época, como a Estrada de Ferro Dona Thereza Cristina, a planta de 1888 demarca o palco geográfico onde milhares de imigrantes italianos iniciaram uma nova vida, impulsionando o desenvolvimento regional.

Em suma, a Planta Geral da Colônia Azambuja é mais do que uma peça de museu ou uma ilustração amplamente compartilhada na internet; é o documento fundador que lança luz sobre o planejamento inicial, a ocupação do solo e a distribuição demográfica que moldaram a identidade cultural, social e econômica da vasta área que, outrora parte de Tubarão, hoje se destaca pela forte influência da cultura italiana. Sua conservação e análise continuam sendo cruciais para a pesquisa histórica e a valorização do patrimônio da imigração catarinense.

Fonte:Julio Cancelier

Foto:Julio Cancelier

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