Evento
O ser humano é frágil e transitório por natureza”, afirma o artista Miguel Anselmo. “Para nos proteger e aplacar nossa
fragilidade, vivemos em prédios e edificações que nos abrigam, construímos paredes, concretas e emocionais”, explica
ele.
Nas obras desta série, conforme o ângulo de onde olhamos, percebemos ossos do corpo humano bordados nas telas.
Os ossos, que constituem a estrutura e sustentação do corpo humano, são também, via de regra, o que sobra depois
da ação do tempo. Chamamos de fósseis os restos de seres vivos preservados durante milênios e que se tornam as
evidências de sua existência, como acontece nos sambaquis. Na obra de Miguel Anselmo, os ossos simbolizam, porém,
não apenas o que permanece, mas a fragilidade do ser humano, ou seja, representam justamente a impermanência e
transitoriedade da existência humana.
O bordado pode ser entendido como as vicissitudes da vida, modificando a tela em branco e condensando sobre ela a
passagem do tempo. Agulha e cordão marcando a obra, assim como a vida também vai nos deixando marcas. Por
cima dos bordados, criando as camadas características dos fósseis, vemos pinceladas precisas e detalhadas que
formam paredes de azulejos, de madeira ou cobertas de papel de parede, mas que sofreram a ação do tempo, que se
desgastaram pelo uso. As paredes formam abrigos, exteriores ou interiores, que nos acolhem e protegem, mas que
também se deterioram, se transformam. Mas deixam rastros e, dessa forma, permanecem.
O artista – agora radicado em Jaguaruna – e sua obra, agora acessível à comunidade local, encontram a realidade da
cidade e da região e se transformam. Jaguaruna tem um papel de destaque no cenário brasileiro como uma das
localidades com o maior número e os maiores sambaquis do Brasil. Estes importantes documentos da cultura préhistórica trazem para os nossos dias a consciência sobre a vida e os hábitos do povo do Sambaqui. Estes povos, que
viveram mais de 4.000 anos antes de Cristo, estão presentes nos nossos dias através dos restos que seu modo de vida
nos legou. Podemos desvendar partes da Pré-História através do legado do povo do sambaqui.
Essa exposição reúne, portanto, o passado e o futuro no presente. Ela trata do que é temporal e atemporal ao mesmo
tempo, pois a presença de evidências daquilo que não existe mais é justamente o que permanece. Aproximando a préhistória do nosso cotidiano, a exposição nos faz refletir, ao mesmo tempo, sobre a preservação destes documentos e
sobre as marcas que estamos deixando para o futuro. Quando seremos nós os fósseis? Que marcas deixaremos de
nossa efêmera existência e breve passagem pelo mundo?
Além de suscitar todas essas possíveis reflexões, essas obras possuem uma harmonia e beleza estética surpreendentes.
É nos detalhes minuciosos criados pelo artista que podemos apreciar a sua técnica e generosidade de traços.
Aproveitem!
E sejam bem-vindos ao passado e ao futuro agora, no presente!
Fabiana Macchi
Universdade Federal do Rio de Janeiro
Agosto de 2024



